Especialista da USP explica formas de transmissão, sintomas e dificuldades no tratamento da doença

Navio – Foto: Susann Mielke/aaawPixabay
Uma infecção viral rara, mas potencialmente fatal, voltou ao centro das atenções após a suspeita de casos em um navio de cruzeiro isolado na costa de Cabo Verde. O hantavírus, associado à síndrome cardiopulmonar, é transmitido principalmente pelo contato com partículas contaminadas de urina, fezes ou saliva de roedores silvestres. Segundo o infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da USP, trata-se de uma doença grave, cuja evolução pode ser rápida e exigir atendimento intensivo.
De acordo com o especialista, a principal forma de transmissão ocorre pela via aérea, sobretudo em ambientes fechados e com presença de roedores. “O hantavírus é uma infecção transmitida geralmente por via aérea, quando é o hantavírus pulmonar, que é o mais grave. Ele habita roedores, especialmente aqueles que vivem em silos e locais onde há armazenamento de grãos”, explica. Nesses ambientes, a circulação do vírus no ar aumenta o risco de contaminação por inalação.
Sintomas evoluem rapidamente e exigem atendimento imediato
A síndrome cardiopulmonar causada pelo hantavírus afeta principalmente os pulmões e o sistema cardiovascular. Os primeiros sinais podem parecer comuns, como febre e tosse, mas a evolução tende a ser rápida e severa. “A pessoa começa com sintomas respiratórios, desenvolve febre, mas isso pode evoluir rapidamente para um quadro de insuficiência respiratória grave”, afirma Boulos. Ele alerta que, muitas vezes, quando a doença é identificada, o paciente já necessita de cuidados intensivos.
Ainda segundo o médico, não há tratamento específico contra o vírus. “Não tem medicamento específico. O tratamento é de suporte, muitas vezes com necessidade de UTI e uso de ventilação mecânica”, diz. Essa limitação torna o diagnóstico precoce e o acesso rápido ao atendimento fatores decisivos para a sobrevivência dos pacientes.
Prevenção depende de evitar áreas com roedores
Sem vacina disponível, a prevenção do hantavírus está diretamente ligada à redução da exposição. O infectologista recomenda evitar locais com infestação de roedores, como galpões, armazéns e silos. “A prevenção é não ter contato, não entrar nesses lugares onde há muitos roedores. Quando isso é inevitável, o uso de máscaras é fundamental para evitar a inalação do vírus”, orienta.
No Brasil, os casos se concentram principalmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, seguidas pelo Sudeste, geralmente em áreas rurais ou locais com maior presença desses animais.
A suspeita de infecção em um cruzeiro internacional — com 149 pessoas de 23 nacionalidades a bordo — segue sob investigação, reforçando a necessidade de atenção global para a doença. Apesar de rara, a infecção por hantavírus é considerada grave e de difícil controle. “É uma doença com prevenção limitada e sem tratamento específico. Por isso, evitar a exposição ainda é a melhor forma de proteção”, conclui Boulos.